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Reconstrução da Ponte de Deba: engenharia temporária ao serviço do património histórico

2026-06-23
O restauro de estruturas históricas representa um dos maiores desafios da engenharia civil. Neste contexto, a engenharia temporária — centrada na conceção de estruturas temporárias que permitem a execução ou reparação de infraestruturas — revela-se essencial. Embora desapareça no final da obra, o seu papel é decisivo para a viabilidade e o sucesso de intervenções complexas.

O caso da Ponte Deba-Mutriku, construída entre 1863 e 1866, e que faz parte do Caminho de Santiago, é um exemplo de como estas soluções permitem realizar com sucesso operações delicadas de conservação. Em 5 de julho de 2018 ocorreu uma falha estrutural grave: o pilar número dois desceu e inclinou-se até 70 cm devido ao enfraquecimento das suas fundações, causado pela ação de microrganismos bivalves. Este deslocamento provocou a falha de duas abóbadas concorrentes e deixou a ponte à beira do colapso total.

A orientação definida pela Diputación Foral de Gipuzkoa foi clara: reconstruir a ponte tal como era; preservar o seu valor histórico sem que a intervenção fosse percetível e sem poder trabalhar por baixo da estrutura.

O sucesso do restauro foi reconhecido em junho de 2023, quando o projeto recebeu o Grand Prix da Europa Nostra, um dos prémios mais prestigiados no domínio da conservação do património cultural europeu.


O desafio mais importante, tal como sucede com as obras do patrimónioartístico, era que o restauro não se notasse.”

JAVIER LEÓN
Diretor de obra [Fhecor Ingenieros Consultores]

RECUPERAR O SABER CONSTRUTIVO DO SÉCULO XIX

Um dos primeiros passos foi investigar como a ponte foi originalmente construída. A equipa estudou as técnicas do século XIX para as integrar nos meios atuais. A combinação entre o conhecimento histórico e as competências técnicas contemporâneas revelou-se fundamental para levar a cabo uma reconstrução fiel.

A esta dificuldade juntou-se o desafio geométrico. A ponte apresentava deformações acumuladas ao longo do tempo, pelo que foi necessário corrigi-las sem alterar a aparência final. O processo envolveu a desmontagem controlada de 1 200 peças de alvenaria, classificadas e numeradas individualmente para posterior recolocação. 

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Um episódio ocorrido durante o processo de desmontagem confirmou a validade do método. Numa das peças, aparecia o número 33 marcado a azul pela equipa atual e, além disso, o mesmo número a vermelho, inscrito no século XIX. Foi a prova de que se estava a seguir a mesma lógica dos construtores originais.

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ENGENHARIA ESTRUTURAL EM CONDIÇÕES EXTREMAS

A obra foi planeada desde o início em duas fases. A primeira, tendo como objetivo estabilizar a estrutura e evitar um colapso total, devia ser compatível com a segunda, centrada na reconstrução definitiva.

Esta abordagem evitou sobreposições e permitiu otimizar os recursos. Os pilares um e três foram reforçados para garantir a estabilidade do conjunto durante toda a intervenção. A plataforma de andaimes BRIO transformou o espaço sob a ponte num ambiente de trabalho protegido, semelhante a um pavilhão industrial, o que facilitou a precisão e melhorou as condições de execução.

A intervenção exigia um sistema de escoramento não convencional. O local apresentava condições difíceis: um leito com marés de quatro metros e um terreno instável que impedia a utilização de cimbres tradicionais. A solução consistiu em suspender a ponte a partir de uma estrutura superior, em vez de a escorar a partir do solo.

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Sobre os pilares 1 e 3, reforçados com micropilotes, foi instalada uma estrutura de cofragem autodeslocável CA55 de grande capacidade, da qual foram suspensos painéis de cofragem modulares por meio de barras Dywidag, dispostas radialmente. Cada uma podia ser ajustada de forma independente para transferir progressivamente o peso da ponte para o sistema. Desta forma, a estrutura ficou completamente suspensa, o que permitiu desmontar as abóbadas danificadas e reconstruí-las sem riscos. A operação foi delicada: Quando as barras atingiram a tensão adequada, quase 100% do peso da ponte estava suspenso no sistema de cofragem.

Os painéis de cofragem foram pré-montados numa plataforma portuária próxima, transportados em barcaças e posicionados debaixo da ponte, sem expor os operários a situações de risco. Estes elementos foram posicionados com a ajuda de guinchos automatizados e uma ponte rolante concebida especificamente para o efeito, o que permitiu a manipulação precisa das cargas.

Depois de assegurada a estrutura, procedeu-se à reinstalação das peças originais, que representavam cerca de 90% do total. A reconstrução foi realizada fio a fio, ajustando cada elemento com precisão para restaurar a geometria original e reconstruir os arcos originais. Nesta fase, o processo de remoção dos cofragens devia ser realizado com a máxima precisão: de forma simétrica a montante e a jusante, bem como no sentido longitudinal, com quatro equipas a trabalhar de forma coordenada para garantir uma distribuição homogénea das cargas. Este processo permitiu que a ponte recuperasse a sua estabilidade estrutural sem alterações visíveis na sua aparência original.

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Em novembro de 2021, o arco voltou a entrar em serviço, o que significava que os meios auxiliares já não eram necessários e que a estrutura de suporte auto-desmontável foi desmontada, devolvendo o protagonismo à ponte já restaurada e totalmente operacional.

“É um prazer trabalhar com a ULMA, pois, além dos recursos que disponibiliza, acompanha-nos durante a execução da obra”.

JOEL DE FRÍAS
Gerente [Harri Construcciones y Mampostería]

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Estes dois vídeos detalham os aspetos-chave e a execução da obra:

(1/2) Ponte Deba-Mutriku, Deba, Espanha

(2/2) Ponte Deba-Mutriku, Deba, Espanha